(...) "Acordo muitos dias com uma fadiga intensa, mesmo tendo dormido toda a noite, ao levantar-me parece-me que um caminhão me passou por cima. Frequentemente surge rigidez matinal. A rigidez pode ainda manifestar-se quando permaneço sentada ou de pé durante algum tempo, bastando para tal uma meia hora!
Sempre tive hipersensibilidade ao toque, bem como
perturbações gastro-intestinais. As alergias têm-se vindo a multiplicar, relacionadas
com vários alimentos (citrinos, bananas, morangos, agriões, mel, chocolate,
carne de porco e seus derivados, como as margarinas, etc). O “síndrome das
pernas inquietas” acompanhou-me sempre, desde que me conheço, tendo-se agravado
na fase da menopausa. O frio tornou-se um suplício, pois há circunstâncias em
que me parece que nada irá conseguir aquecer-me.
Os sintomas, com frequência variam em relação à
hora do dia, podendo ter maior incidência matinal, agravando-se com a
actividade física, com mudanças climáticas, com noites de insónia, com
situações de stress.
Tornou-se difícil e muito penoso, para mim, o
desenvolvimento das minhas actividades de vida diária (higiene, vestir, etc).
Passei a evitar reuniões de trabalho, actividades de secretariado e ao
computador, ir ao cinema, assistir a eventos, fazer viagens, isto é, situações
que me impedissem de mudar de lugar ou de posição livremente.
Tinha uma actividade intensa familiar,
profissional, social e desportiva. Uma garra, uma força e alegria de viver que
me ajudavam a transpor todos os obstáculos, acompanhadas de perfeccionismo,
persistência e dádiva aos outros que, repentinamente, se foram esfumando e
culminaram numa crise dolorosa, numa imobilização prolongada e numa profunda
depressão. Esta, ocasionada por me ver incapacitada, por não encontrar
tratamento eficaz para aliviar as dores, por sentir que alguns médicos não
davam credibilidade às minhas queixas, mas acima de tudo, porque desconhecia o
diagnóstico, ninguém me dizia o que eu tinha! Afinal o que tenho eu? O que se
passa comigo?
Fui operada à coluna, a qual foi um sucesso, mas as
dores cada vez se agravavam mais. Submeti-me durante mais de dez anos, a
fisioterapia, hidroterapia, acupunctura, ginástica de estiramento, yoga, dietas
para emagrecer, a múltiplos exames, infiltrações, terapêutica
anti-inflamatória, anti-alérgica, miorrelaxante ...
Todos os exames e análises eram normais, mas as
dores continuavam e cada vez mais insuportáveis, a minha personalidade
alterou-se, tornei-me uma pessoa revoltada e sempre irritada, ao ponto de me
passar pela cabeça pôr termo à vida!?
A ansiedade começou a instalar-se, bem como a
depressão, comecei a ter perturbações da atenção, da concentração e da memória,
a não suportar ambientes buliçosos e em situações de conflito a surgirem dores
de cabeça, tipo enxaqueca e grande instabilidade. Sem resposta para as minhas
angústias, sem alívio das dores, sem um diagnóstico que afastasse o fantasma de
ter um cancro, incompreendida pela família, amigos e colegas. De médico em
médico (neurofisiatra, neurocirurgião, neurologista, ortopedista e psiquiatra)
saturada de tudo isto, a vida tornou-se um inferno e deixou de me interessar.
Mas, num relâmpago tudo se tornou claro e evidente!
Num fim de tarde, enroscada no sofá, dormitando e tendo por fundo o som da TV,
chamou-me a atenção a história de alguém que estava a ser entrevistada. Era uma
mulher jovial, de meia idade, de olhos verdes muito expressivos, minha
homónima, que fora professora como eu e cuja história de vida que descrevia,
surpreendentemente, parecia a minha. Ela tinha fibromialgia!
Pouco tempo depois, finalmente, foi-me também
diagnosticada fibromialgia grave instalada há mais de vinte
anos, através da história clínica e observação médica do neurologista, que pôs
em evidência os 18 pontos dolorosos, associados à fadiga, às perturbações
acentuadas do sono, alterações emocionais, isto é, de acordo com os critérios
de diagnóstico estabelecidos pelo American College of Reumatology (1990).
Graças ao conhecimento do diagnóstico
(Fibromialgia):
»Iniciei um tratamento bem direccionado para os
sintomas, mudei completamente a minha vida familiar, interrompi a minha
actividade profissional e aprendi a lidar comigo mesma, com os outros e com as
circunstâncias.
»Procurei documentar-me e compreender a doença, de
forma a desenvolver em mim as competências necessárias para lidar com a dor e
os problemas que se renovam dia a dia.
»Decidi encontrar um novo ritmo de vida, uma nova
forma de estar e, acima de tudo, viver o dia de hoje plenamente e a empenhar-me
no futuro em vez de me debruçar e lamentar o passado.
»Seleccionei e passei a desenvolver actividades
sensoriais e intelectuais compatíveis com as minhas capacidades, tendo em conta
que esta doença é cíclica.
»Aprendi a lidar com a dor e a conviver com ela,
faseando todas as actividades diárias, por mais pequenas que sejam. Tendo
sempre em mente que mesmo um pequeno esforço, mas com alguma duração (ex: falar
ao telefone) pode desencadear dores muito fortes.
»Passei a fazer só aquilo que posso fazer, quando
posso e como posso, não permitindo que os outros tenham pena de mim ou façam o
que eu penso poder fazer.
»Aprendi a ter coragem de dizer “não” às exigências
dos outros, mesmo quando esse “não” me parte o coração!
»Sempre que necessito sei que encontro todo o apoio
incondicional do médico que me fez o diagnóstico, o que me acompanhou ao longo
destes anos e a médica escolar da minha instituição de trabalho. Sei que posso
contar com o médico de família e com a sua equipa, com Associação Portuguesa de
Doentes com Fibromialgia. Mas, acima de tudo, que devo contar comigo própria e
ter confiança em mim mesma, nas minhas competências e só assim “serei capaz
de vencer a dor”.
»Entreguei-me de alma e coração à Associação,
contactando com pessoas que têm problemas semelhantes aos meus e partilhando as
experiências positivas, os êxitos face à doença. Tornei-me útil aos outros no
sentido de melhorar a sua qualidade de vida e, assim, minorar o seu sofrimento."
Maria Fernanda Figueiredo Guerra
Professora da Escola Superior de Enfermagem de
Coimbra.
Compilado do site: http://www.apdf.com.pt/testem_01.php
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